sexta-feira, 27 de maio de 2011

Síncope

Segurava-me
por mais um compasso.
Então, meio torta e,
até dissonante por horas,
eu ficava soando.
Às vezes eu notava que
eu começava a desaparecer,
suavemente.
Tudo ao final de mim se
resolvia, eu já não
estava mais lá.
Segurava-me em outro compasso.

sábado, 14 de maio de 2011

Transparência existencial

E eu sou invisível no
meu próprio mundo.
Não sou tão esforçada
quanto a Gizele,
não toco tão bem
como O Artur
e não tenho talento
como a Lígia.
Minha fala é,
em demasia, atrapalhada.
Minha auto-estima
é totalmente destroçada.
Não tenho o sorriso do Flávio,
não tenho o corpo da Elis.
Eu não tenho,
eu não sou,
eu lamento,
eu ainda não sou o meu autor.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Idéias de papel

Não é ausência de idéias,
é a confusão das mesmas.
É a mente inquieta e o
corpo mole que descompensa.
Os braços choram
enquanto a poesia satisfaz.
As mãos se quebram e
a harmonia se refaz.
Uma folha vazia se enche
de universos, e o corpo, lento,
adormece por completo.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Maestro

Shiiiu, vai começar.
Mãos erguidas e o um.
Infesta tudo de sons;
respira, toca, solfeja.
Os fraseados nos braços,
dois, três; sopra o vento.
Os ataques nos olhos,
áspides acordes.
Corre suave,
gestos gentis.
Todos já sabem;
fermata.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Perder

Eu tinha poucos amigos no colégio,
poucos e que me faziam rir muito.
Nunca fui o tipo de pessoa que
ia falar com as outras, que
telefonava e pergunta ''Como vai você?''.
Eu sou a amiga que ninguém
precisa ter, aos poucos
foram notando isto.
Eu sou amiga que não
vibrava muito com a sua alegria,
que não chorava com tristeza.
Mas, talvez, fosse a amiga
mais leal e verdadeira.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Mercenária

Denise nunca sentira amor.
Tinha orgulho disto e ostentava
a todo instante.
Namorou com poucos homens,
achava o mundo repugnante.
Denise era tão estranha que
se dizia metafísica.
Ela se apaixonava por pessoas,
mas apenas por aquelas críticas.
Talvez fossem os cérebro que
cativassem Denise, os cérebros alheios.
Desgostava muito fácil quando
percebia, dos namorados, os anseios.
Quase sempre cogitava
morrer virgem e solteira.
Todavia era esperta e sabia:
"Preciso pensar na minha
situação financeira."

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Lembranças de alguém

Tenho saudades de mim,
do tempo em que eu escrevia;
o tempo em que o tempo
para mim se estendia.
Aquele cheiro de bolo
que eu devorava por inteiro,
o colo infantil e sem nenhum lamento.
Meus pés corriam para brincar,
os mesmos pés hoje ainda correm
para não se atrasar.
Tenho saudades de mim,
de quando eu me conhecia,
saudades de saber o que eu queria.

sábado, 5 de março de 2011

Tudo que você gosta.

Então você percebe que cresceu,
está na faculdade e tem idade para beber.
Aí você percebe, depois de alguns dias,
que tudo que você queria era voltar no tempo.
Suas obrigações te roubam inteira.
Você está cansada.
O seu dever é ser a melhor no que você gosta,
mas, sem conseguir isso, você se quebra.
Aquele seu piano que reluzia sua fuga da química,
se apaga nas tentativas de fuga de Bach.
Você foge de Bach.
Você ainda gosta de tudo que gostava,
você ainda sonha tudo que sonhava.
Então, querida, qual o problema?
O problema é ver que não é a unica com talento?
Se achar sem talento?
O mundo cobra mais de você ou você se cobra muito?
Você não sabe até onde tem que ir para ser boa.
Todos a sua volta são incríveis
mas você é só aspirante.
Você não brilha mais e
o mundo se escurece depois dos sonhos.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Conclusão

Percebi que sou triste.
Não foi algo inemaginável,
contudo fora negado.
Irrefutável esta condição
de solidez deprimida.
Apenas, se,
com momentânea alegria.
É rara esta situação
Percebi, além disso,
teimosia de pensamento.
Pensamentos que me atormentam
e eu continuo pensando.
Não é sem querer que penso.
Percebi que sou triste,
mas de cuja tristeza
estável e ,de mim, antiste.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Poema Prostrado.

Um caco de vidro quebrado
O quebrado vidro, um caco.
O vidro, um caco, quebrado.
Um vidro, o, quebrado caco.

Um caco de vidro q
u
e
bra
d
o caco.